sexta-feira, 19 de maio de 2017

Resenha: Deuses Americanos

   Olá metamorphyos! Como vocês estão? Vamos para mais uma resenha, e a de hoje é especial: Deuses Americanos, de Neil Gaiman (o Mestre!), um clássico contemporâneo da fantasia. Vem se aventurar comigo por essa leitura!


 
"Deuses morrem. E, quando morrem para sempre não há luto nem
memória. É mais difícil matar uma ideia que uma pessoa, mas,
no fim das contas, ideias também podem morrer." 

   Deuses Americanos é um livro do gênero fantasia urbana, uma road trip (viagem pela estrada) pelos Estados Unidos, lançado em 2001 pelo Neil Gaiman, vencedor dos prêmios Hugo e Nebula de melhor fantasia e ficção científica de 2002. A obra foi rapidamente considerada um clássico pela crítica especializada e fez o nome de Gaiman disparar como escritor de romances (ele já era consagrado pelos quadrinhos de Sandman antes disso).

"Os deuses são grandiosos. [...] Mas o coração é ainda mais grandioso.
Pois é de nossos corações que eles nascem, e aos nossos corações
hão de voltar."

   Como o nome sugere, o livro trata do embate entre os deuses velhos, que estão sendo esquecidos e perdendo suas forças, e os novos deuses, que são figuras como a Mídia, as Estradas, a Tecnologia. Percebam a crítica social gritante que Deuses Americanos traz: a sociedade moderna está adorando e dedicando mais tempo ao "culto" das tecnologias, televisão, internet, celular, do que aos deuses que cultuamos por tradição, seja Jesus, Shiva, deuses africanos ou nórdicos, de acordo com cada cultura. 

"Sim, ainda é a Terra de Deus. A única questão é:
de que deuses?"

   Deuses Americanos conta a história de Shadow Moon, presidiário que é liberado em condicional um pouco antes do esperado por causa do falecimento de sua esposa, Laura Moon. Na viagem para casa, Shadow conhece o misterioso Mr. Wednesday e logo se vê envolvido numa guerra que não escolheu e disputado por ambos os lados. O porquê disso é algo a ser descoberto futuramente.

"- Sabem, acho que prefiro ser humano a ser deus. A gente não precisa
que ninguém acredite que existimos. A gente existe de qualquer jeito. É o que a gente faz.

   A narrativa é em terceira pessoa, mas acompanhamos a perspectiva de Shadow, que entende muito pouco ou quase nada do que está acontecendo e dos planos maliciosos do Mr. Wednesday, e suas descobertas passam a ser as nossas descobertas. Pouco a pouco a história vai sendo muito bem amarrada e costurada e aqueles trapos de informação aparentemente soltas tomam forma até se revelarem um tapete rico, intrincado e perfeitamente tecido.

   "- A questão não é o que é. A questão é o que as pessoas acham que é.
De todo modo, é tudo imaginário. As pessoas só brigam por coisas imaginárias."

 Os personagens são construídos nos mínimos detalhes e cheios de referências aos diversos panteões incorporados na trama. São carismáticos, irônicos e inteligentes. Shadow é taciturno, quieto, solitário e até mesmo melancólico, afinal, ele é um viúvo e sua relação com a esposa era de dois pombinhos apaixonados.

  Aos deuses são atribuídas características humanas, sentimentos, desejos, emoções, inclusive defeitos. Os novos deuses também são personificados e construídos com alusões ao que representam. Não vem ao caso qualquer polêmica envolvendo religião, o importante é entender que tudo no universo Gaiman é metafórico e conceitual.

Deuses Antigos

   Gaiman nos apresenta vários e vários deuses, com direito a interlúdios (amo essas partes!) contando um pouco da vinda dos imigrantes para a América, que trouxeram consigo suas crenças, lendas e tradições.

"Nunca houve uma só guerra que não tenha sido travada entre dois grupos
inteiramente convictos de que estão fazendo o que é certo."

   Os deuses antigos são muito carismáticos e extremamente bem pensados e construídos. Entre a enorme quantidade de panteões misturados, destacam-se alguns deuses, como spoiler alert!!! o Mr. Wednesday, Mr. Nancy, Czernobog e o panteão egípcio, que são carregados de referências, desde os nomes até suas vestimentas, jeitos de pensar, agir e falar. É uma verdadeira aula de mitologia e referências. Não espere deuses benevolentes e cheios de amor! Eles são ambiciosos, cheios de caprichos e vingativos, mas são irresistivelmente adoráveis.
   
"Na Bíblia inteira, Jesus só prometeu um lugar no paraíso para um único cara,
 pelo menos pessoalmente. Não foi nem Pedro nem Paulo, nenhum daqueles
homens. Era um ladrão condenado, bem na hora da execução. Então
não despreze as pessoas que estão no corredor da morte. Talvez
elas saibam de algo que você não sabe.

   É incrível a relação que o autor faz entre a terra e os deuses, o paralelo entre nativo e estrangeiro dessas deidades, culturas, lendas e tradições, e fundamental para entender a mensagem do livro.

Novos Deuses

   Os novos deuses são elementos que fazem parte do nosso dia a dia e já não conseguimos viver sem. Por isso tornaram-se tão fortes, pelo poder da crença, da adoração, da dedicação de seus "fiéis". Aqui as referências também são inúmeras, uma vez que Gaiman personificou, deu vida, personalidade, características humanas a "coisas" como a televisão. 


    Uma coisa que me incomodou um pouquinho, mas não que seja um defeito, e sim uma expectativa que eu tive, foi a falta de foco nos deuses. Porém, a história é do Shadow e da relação que ele tem com os deuses e com o embate entre eles, logo é compreensível que seja assim.

   A leitura é, como eu disse, uma road trip, uma viagem, então a ação muitas vezes fica de lado. Os diálogos são inúmeros e extensos, perspicazes e muito inteligentes, mas em certos momentos fica meio monótono. Nada que tenha me atrapalhado ou que desmereça o livro, porque mesmo nos momentos mais banais há referências e ganchos para a história como um todo.

"As pessoas acreditam. É isso que as pessoas fazem: acreditam. E depois não assumem
 a responsabilidade por suas crenças. Conjuram coisas e não confiam nas próprias 
conjurações. As pessoas povoam a escuridão com fantasmas, deuses, elétrons,
histórias. As pessoas imaginam  e acreditam: e é essa crença, 
essa crença sólida, que faz tudo acontecer. 
    As revelações vêm em ritmo insano e desafiam nossa percepção e inteligência, o que eu particularmente amo! Tudo é bem plausível e você corre o risco de ficar perplexo por não ter imaginado tais soluções, esteja avisado.

   A edição que eu comprei foi a edição preferida do autor, uma edição especial de dez anos da obra com trechos do manuscrito original que ficaram de fora, a princípio. O livro é simplesmente lindo, a capa, contracapa e orelhas são todas em relevo numa espécie de plastificado, as páginas amareladas com fonte agradável para a leitura. O melhor de tudo: essa edição contém uma seção de extras, com um trecho inteiro que foi retirado da primeira edição e incluído, agora, como apêndice. Também tem uma entrevista linda com o Neil Gaiman. Vale a pena cada centavo!


   Deuses Americanos acabou de ganhar uma série, American Gods, bastante fiel ao livro, com alguns adicionais, contando com o próprio Neil Gaiman no roteiro. Em breve ela vai ganhar uma resenha aqui também, mas posso adiantar que está linda! Porém, aconselho fortemente a leitura do livro antes de assisti-la.

Deuses Americanos (American Gods)
Neil Gaiman - 2001 (edição favorita do autor: 2011)
Páginas: 576 - Skoob


   Então é isso metamorphyos! Recomendo demais para quem gosta de fantasia e mitologia, para todos os fãs do maravilhoso Gaiman que ainda não leram e para todos que quiserem se aventurar no mundo da literatura fantástica.

   Gostaram da dica? Já conheciam? Quero saber a opinião de vocês! <3

Beijos e até a próxima!

11 comentários:

  1. Estou muito curiosa para ler esse livro é assistir a série :) acho a edição da Intrínseca maravilhosa, e o estilo "viagem" sempre em remete a coisas legais. Mesmo que ele tenha me soado meio "didático", acho que seria algo que me faria viajar e pensar nas coisas.

    Sua resenha está ótima, bem completinha <3

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    1. Olá Luana! O livro é maravilhoso, mas não é tão didático quanto pareceu. Eu é que tentei ser um pouco, porque na verdade ele é um pouco confuso, já que o narrador não é onisciente. No começo tudo é uma confusão só e é bem gostoso ir descobrindo as coisas junto com o Shadow. Leia sim e depois me conte o que achou! <3

      Beijos!

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  2. "- A questão não é o que é. A questão é o que as pessoas acham que é.
    De todo modo, é tudo imaginário. As pessoas só brigam por coisas imaginárias." - Ao chegar nesse ponto, lembrei-me de um trecho do Shakespeare, que vai um pouquinho contra só... Ele diz assim: "Não importa o quanto você se importa. Algumas pessoas, simplesmente, não se importam!"- No fundo ele queria dizer que nossas angústias são traidoras e nos fazem paralisar quando, na verdade, temos que caminhar! Eu curti a trama, parece interessante, mas as assertivas dos excertos me distanciam. Acho sempre que as assertivas são perigosas demais para que se encerrem nelas mesmas.

    Noutro ponto foi muito bacana ler tudo! Gostei mesmo! De Verdade!

    Um grande Beijo!

    O.C.

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    1. Oi Oscar! Nossa, quantas reflexões! Os textos do Neil Gaiman são cheios de assertivas, mas a questão não para por aí. A intenção é te fazer refletir mesmo, e não bater o martelo de que aquilo é uma verdade absoluta. Ele é bem crítico nos livros, mas geralmente de forma leve e irônica. Acho que você gostaria bastante da leitura.
      Muito obrigada pelos elogios e pela contribuição!

      Beijos!

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  3. Olá!
    Apesar de nunca ter lido nada de mitologia, gosto bastante de Deuses nas minhas histórias, invento uma "carrada" deles, que imagino e descrevo. E, é verdade que a maior parte deles são incompreendidos, pois metade das pessoas não acreditam nem em um, mas achei a tua Resenha interessante.
    Convidativa a mergulhar no Livro, adorei a ação que se desenvolve.
    Um grande Beijinho.
    Graça Torre.

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    1. Oi querida, muito obrigada. Adoro mitologias e deuses, acho essas referências super interessantes nas histórias! Espero que tenha a oportunidade de ler o livro!

      Beijos!

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  4. Oiii linda tudo bem?
    Eu comecei a assistir essa série e estou encantada menina, pude perceber a evolução em cada episódio, mesmo tendo só 3, além do mais a sua postagem ficou o máximo, gosto muito de séries com deuses.
    Beijinhos

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  5. Vi o primeiro episódio da série baseada no livro e achei bem interessante me lembrando em alguns momentos a série True Blood. Pela tua resenha o livro é muito e traz uma nova visão para os hábitos modernos.

    Blog Profano Feminino

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  6. Assim que li o nome d post quis logo ver porque achava que era sobre a série haha mas gostei bastante de saber que é um livro e agora que virou série, eu adoro essa coisa mitológica de Deuses. Meu amigo já havia me indicado a serie, só não vi ainda por conta do tempo.
    Agenda Aleatória

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  7. Muita boa sua resenha. Conheci o autor através de sua obra prima - Sandman - e logo após procurei conhecer seus outros trabalhos. Atualmente estou lendo Deuses Americanos e estou achando muito convincente e instigante.Neil Gaiman sabe como ninguém misturar mitologia, religião e contemporaneidade para dizer o que deve ser dito. Assim que terminar o livro vou atrás da série de TV. Parabéns pelo blog!

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  8. OOi!
    A premissa do livro é demais, mas confesso que o que mais me chamou atenção foi o trailer da série. Fiquei bem curiosa e já anotei a dica para assistir. haha

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